CONTO 4
A Fortaleza e o Mar
Alexandre Silva; António Rodrigues; João Pereira; José Fernandes; Maria Almeida
Era uma vez o oceano que cerca a bela cidade de Peniche, com praias extensas que envolvem de alegria e cor a vida daqueles que as podem observar. Nesta parte do oceano, encontra-se o ponto mais ocidental da Península de Peniche – o Cabo Carvoeiro – e o arquipélago das Berlengas, onde se encontram espécies raras de flora, aves e peixes. Neste lugar lindo e paradisíaco, podemos fazer mergulho ou dar passeios de barco para explorar as grutas.
Este oceano de Peniche tem uma particularidade especial, adora conversar com o seu vizinho Cabo Carvoeiro e com a sua vizinha Berlenga. São os três muito felizes quando falam das aventuras dos turistas que os visitam.
Há algum tempo, em 1974, umas certas gaivotas pousaram numa rocha e o mar veio conversar com elas. Há que realçar que, por serem muito viajadas, estas gaivotas falavam várias línguas estrangeiras. Num determinado dia, puseram-se à conversa com o oceano e a fortaleza.
– Olá, queridas, amigas! A voar para estas bandas?! – perguntaram as águas oceânicas.
– Hola, querido mar. ¡Pareces triste y escuchamos a tus vecinos decir que no les has hablado en varios días! – respondeu uma das gaivotas que havia chegado da vizinha Espanha.
– É verdade. Têm razão. Sinto-me estranho. Já falei com a Sea Queen e talvez siga alguns dos seus conselhos. – respondeu com ar taciturno.
– But what is the problem, my friend? – questionou uma Seagull vinda do norte, diretamente do Reino Unido.
– Sabem…eu tenho visto muitos homens por aqui à minha volta, mas nem se apercebem da minha beleza, porque não olham para mim. São cruéis, desumanos, impiedosos, terríveis, sinistros. Acho que são mesmo muito maus. Conhecem-nos? Sabem quem são? – respondeu com tristeza e angústia.
– Yes. We do know them, and we feel the same. Nobody knows what’s going on. What advice did the Sea Queen give you?
– Disse-me para ir conversar com a Fortaleza, mas não sei se ela me vai ouvir! Ela nunca fala comigo! Vivemos juntinhos, aqui, entre estas rochas maravilhosas, mas ela passa o tempo a chorar, a lamentar-se… anda angustiada, numa tristeza profunda, parece ser unhappy ☹. Eu só queria poder ajudá-la! – desabafou.
– Miedo a nada. Iremos contigo. También queremos que seas feliz. En este lugar, todos deberíamos ser felices.
– Gracias, muchas gracias. Amanhã, ao amanhecer, encontramo-nos aqui.
A noite caiu. Ouvia-se ao longe, um pescador que cantarolava: “ Que é da tua alegria? Tens tanto para lutar e a noite está fria! Teima, teima sem medo”. Como combinado, na manhã seguinte, as gaivotas sobrevoaram as águas e chamaram pelo seu amigo.
– Ocean, are you there? – .
– yes, estou aqui. Vou elevar as minhas waves para alcançar a Fortaleza. – E esticando-se com garra, alcançou a fortaleza com a sua maresia.
– Fortaleza! Fortaleza! Consegue ouvir-me? – perguntou o Mar num sussurro.
– Bom dia, mar. Eu ouço e vejo tudo o que está à minha volta, mas estou proibida de falar seja com quem for.– respondeu a Fortaleza, igualmente sussurrando.
– Quero ser seu amigo! Por favor, conte-me o que se passa. Quero ajudá-la…
– ¡Gracias! Hablaré en otro idioma para que no nos entiendan. ¡Soy una prisión! ¡Esto es lo que me hizo! Creen que soy fuerte y poderosa, pero duele interpretar este papel en un lugar tan hermoso y misterioso. ¡Veo a muchos hombres siendo castigados, pidiendo comida, algunos tienen prohibido dormir y otros tienen el agua hasta el pecho y tiemblan de frío! Los soldados vigilan y controlan todo lo que hay dentro. Esto no puede durar más.– explicou a Fortaleza, sempre receosa que alguém os pudesse ouvir.
– Mas o que fizeram eles para merecer esse castigo? – perguntou curioso o oceano.
– Las normas dictadas por el gobierno de Salazar hay que cumplirlas escrupulosamente y hay gente que no las cumple. Unos escribieron en los periódicos lo que pensaban, otros dijeron algunas palabras prohibidas en la radio o la televisión, otros leyeron algunos libros prohibidos, escucharon música que no debían y vieron películas no recomendadas. No hay libertad de expresión. ¡En nuestro país tenemos prohibido hacer y decir tantas cosas!
– Ah! Agora percebo algumas coisas que ouço e vejo. Sabes, eu já espreitei e vi a Polícia Política, aquela a que chamam Pide, a fazer o registo dos nomes dos familiares e de outras pessoas que visitam os presos, anotam tudo e até controlam os locais onde os familiares comem, dormem e as pessoas com quem conversam. – respondeu confirmando as afirmações da Fortaleza.
– ¡Tan triste! Pobrecito del mar y de la Fortaleza. ¡Están tan tristes! – diziam as gaivotas desgostosas, quando algo inesperado aconteceu…
Ouvia-se por ali o barulho de muitas pessoas. O silêncio habitual era agora invadido de gritos e palmas! As gaivotas aproximaram-se voando e encontraram perto da Fortaleza dezenas de pessoas que gritavam “viva a Liberdade”. Sorriam com alegria e pareciam festejar!
– Let’s tell the sea what is happening! – e em grande velocidade voaram de forma rasante para espalhar esta notícia.
– Sea! My friend! You can’t imagine what we saw and what the fishermen said! Listen well!
– O que foi? Que pressa é esta? O que dizem por aí? – perguntou quase assustado o mar.
– Hoy es 25 de abril de 1974. La Fortaleza está llena de militares que han llegado. Los habitantes de Peniche están todos allí. Dice que en la televisión y en la radio no hablan de otra cosa.
– They also say that we’re all finally going to live in freedom and that tomorrow the men who are locked up in the Fortress will be able to leave and be free.
– También dicen que en la gran ciudad de Lisboa la gente lleva claveles rojos y está contenta.
Numa mistura de línguas e com muito entusiasmo, as gaivotas contavam as notícias fresquinhas ao seu amigo mar.
– Verdade?! Vou já falar com a Fortaleza e ver o que se passa.– respondeu o mar dirigindo-se em vagas majestosas até junto da Fortaleza.
– ¡Mar, mar, mar, amigo mío, estoy tan feliz! ¿Te han dado la noticia? – perguntava alegremente a Fortaleza.
– Sim, amiga. As gaivotas têm andado por aí a ver e a ouvir tudo e já me vieram contar!
– Por favor, vai chamá-las. Vamos fazer uma festa. O dia 25 de Abril tem de ser uma festa. E já posso falar em Português, sem medos! – respondia alegremente e cheia de bravura a Fortaleza.
As gaivotas aproximaram-se, trazendo cravos vermelhos no bico. Voavam alegres e festejavam a liberdade enchendo o céu de Peniche de flores esvoaçantes. Em perfeita sintonia voavam ao som das canções que se ouviam lá em baixo, junto à Fortaleza. Canções da liberdade, do José Afonso, da alegria que se sentia.
Numa epifania de cor, sons, movimento e cheiros o mar acariciava a Fortaleza com as suas ondas suaves e as gaivotas completavam a festa esvoaçando ao som das vozes das pessoas felizes.
E assim se festejou a Liberdade | Freedom | Libertad
