CONTO 1
A Tradição de Óbidos: Onde o amor se torna Rei-no
Ana Cruz; Mafalda Seco; Érika Santos
Há muitos, muitos anos atrás, num tempo em que ainda havia reis e rainhas com os seus belos e compridos vestidos, num reino chamado Portugal, vi-via um rei de seu nome D. Dinis (o Lavrador) e a sua linda donzela, a rainha D. Isabel de Aragão. Eram um casal muito, muito feliz. O rei e a rainha gostavam muito um do outro mas, como todos os casais, nem sempre tinham as mesmas opiniões e acabavam por discutir de vez em quando. Foi isto o que aconteceu numa manhã muito, muito quente de verão, depois de um grande e saboroso banquete no palácio.
O rei D. Dinis era muito, muito brincalhão, gostava de fazer piadas e, naquela noite, durante o grande e saboroso banquete no palácio fez um comentário desagradável sobre a rainha D. Isabel em frente de toda a corte. Natural-mente, a rainha não gostou e ficou bastante envergonhada, o que fez com que se zangassem.
D. Isabel era conhecida pelo seu povo como uma pessoa cheia de bondade e respeitosa, mas quando faziam comentários maldosos (principalmente vindos do rei), isso enfurecia-a. Assim que todos saíram do banquete, a rainha seguiu o rei e assim disse:
– D. Dinis! — exclamou com os olhos cheios de raiva. — Como ousas brincar com algo tão sério?
D. Dinis ficou preocupado e tentou desculpar-se, mas as palavras não conseguiram acalmar o coração da sua rainha. Ela levantou-se, olhou para ele com tristeza e afirmou:
– Preciso de um tempo sozinha, para refletir sobre tudo isto.
D. Dinis ficou aflito. Sabia que tinha cometido um erro, mas não sabia como consertá-lo. Porém, depois de algum tempo a pensar, ocorreu-lhe uma ideia. Lembrou-se de que o Castelo de Óbidos, uma fortaleza maravilhosa que ficava no topo de uma colina, poderia ser o presente perfeito para acalmar o coração de D. Isabel. Talvez assim, ela perdoasse a sua brincadeira.
O Castelo de Óbidos era como um castelo de contos de fadas! Com as suas grandes muralhas de pedra, que pareciam tocar o céu, era um lugar mágico! As torres altas eram como gigantes que protegiam o castelo e, lá de cima, avistava-se toda a vila e os campos verdes em redor. Dentro do castelo, havia salas enormes com tapetes coloridos e lustres brilhantes que tudo iluminavam. Os jardins eram cheios de flores bonitas e fontes, que emitiam o calmante barulho da água, como se estivessem cantando.
D. Dinis imaginou D. Isabel movendo-se pelos corredores do castelo, sentindo-se como uma princesa no seu próprio reino. Ele esperava que a beleza e a magia do castelo pudessem fazer D. Isabel sorrir novamente e esquecer a triste brincadeira. Afinal, o Castelo de Óbidos não era apenas um lugar seguro; era um lugar cheio de amor e de sonhos, perfeito para uma rainha. Foi assim que chamou a sua rainha e, com um sorriso tímido, disse:
-Isabel, quero oferecer-te algo muito especial para te mostrar o quão eu te amo. O Castelo de Óbidos será teu. É um presente de coração, para que possas reinar lá e ter poder sobre toda a terra em seu redor.
Porém, D. Isabel, ainda magoada com a discussão, olhou para o castelo e abanou a cabeça.
-Agradeço-lhe, D. Dinis, mas neste momento não sei se posso aceitar. O presente, embora belo, não irá apagar a dor da nossa discussão. Preciso de pensar.
A rainha, triste com toda a situação, sentiu a falta do apoio das suas fadas madrinhas, Eunice e Celeste. Dirigiu-se assim à floresta encantada, onde sabia que as poderia encontrar. Estas fadas não eram como as outras! Elas sempre ajudaram muitas, muitas rainhas de diferentes países e cada uma vinha de um sítio diferente, falando a língua desse país.
À medida que caminhava, a rainha observava as árvores cobertas de folhas, flores coloridas, borboletas lindas e brilhantes, uma luz radiante de final de tarde que iluminava a floresta, um rio repleto de peixinhos e patinhos que brincavam em grande harmonia.
Ouvindo uma bela sonoridade ecoando pelo meio da floresta, a rainha sabia que estava quase, quase a chegar perto das suas fadas madrinhas. Foi então que avistou as suas duas pequeninas cabanas, rodeadas de lindas flores, porém uma com ar mais triste que a outra…
Por incrível que parecesse, elas já sabiam da sua visita e tinham preparado um lanchinho para com ela se reunirem. Celeste começou por perguntar:
– What’s bothering you, my angel? You look sad.
– Ai madrinha, é o Dinis!!! Já não o aguento mais, está sempre a fazer comentários inadequados. Resmungou a rainha zangada.
– ¿Problemas en el paraíso otra vez, mi amor? – bromea Eunice.
– Não entendo! Parece que faz de propósito e, ainda por cima, quer dar-me o castelo de Óbidos como pedido de desculpa.
– ¿QUIERE REGALARTE UN CASTILLO? – (dijeron las hadas simultáneamente)
-HE WANTS TO GIVE YOU A CASTLE? -(said the fairies simultaneously)
– SIMM, vocês acreditam nisto? Estava a decorrer o banquete real quando ele se dirigiu a mim e disse: “Acho que não devias comer tanto meu amor, já estas a ficar gordinha hehehe”. Em frente de toda a corte!!
– ¡De verdad que no sabe de lo que habla! No creo que debas perdonarle. – dice Eunice.
-Don’t say that, Eunice! He has a good heart, I’m sure he didn’t say that with the intention of hurting you!
-Celeste, siempre ha sido así. ¡Ha herido a Isabel innumerables veces con sus comentarios!
– But this act of love is so genuine, how could he have bad intentions?
-Está intentando comprarla con un castillo celestial, ¿no te das cuenta?
– How awful, Eunice, that you’re saying that Dinis sees Isabel as an object!
– ¡Yo no he dicho nada de eso! Sólo digo que darle un castillo como disculpa no me parece bien.
– You must think about it the other way round Eunice! A castle will give Isabel an image of power, she’ll have a home to call her own and rule the kingdom in her own way, not to mention it will give her more wealth and she’ll be much loved by her people!
– Tienes razón Celeste, pero sigo pensando que ella no debería aceptarlo… él va a seguir siendo el mismo de siempre… no porque le hagas regalos cambiará su actitud.
– But Eunice, you must realise that Dinis and Isabel are married! They won’t be able to separate… so by not accepting the castle, she’ll only lose out, because she’ll have to deal with these comments until death do them part.
– ¡Pero no debería ser así! Qué tontería… ¿cómo van a cambiar las cosas si cada vez que él hace sus comentarios desagradables e Isabel se enfada, él le compra un regalo caro y ella lo acepta?
– It’s true, you can’t just accept the castle, there must be something more…
-Assim vocês não me estão a ajudar! Sinto-me cada vez mais confusa. – dizia amargurada Isabel.
– You’re right. Let’s think together!!! What does your heart say?
– Não sei bem, fada! Eu amo-o muito, mas se eu estiver sempre a aceitar os seus presentes, não vai mudar em nada… se bem que eu gostava de poder ter o meu cantinho onde me refugiar… e o castelo de Óbidos parece-me uma ótima ideia!!!
– ¡Entonces, ya sé! Aceptarás, pero pedirás para tener una conversación seria con él y le explicarás todo lo que sientes, y le pedirás que cambie sus actitudes que te molestan…
– I completely agree with you Eunice, that’s how we all agree!
– Simm! É isso que vou fazer! Aii!!! Nem acredito que vou ter um castelooo! Muito obrigada, fadas madrinhas, ninguém melhor para me ajudar como vocês.
– You’re welcome my love, we’re always here for whatever you need!
– Sí, puede volver con más problemas en el paraíso, ¡y aquí estaremos para resolverlos!
Então a rainha retornou ao seu palácio, para junto do seu amado. Ao aproximar-se a noite, chamou D. Dinis para conversar:
-Dinis… Onde estás? Vem ter comigo para falarmos, por favor!
-Isabel? Já chegaste! Pensaste no que te propus?
-Sim, mas antes de te responder precisamos falar…
-Então?
-Dinis… tens de entender que eu não me tenho sentido bem com os teus comentários… agradam-me os teus presentes, mas tens de pensar nos meus sen-timentos quando dizes coisas que me magoam…
-Não sabia que te ofendia tanto, minha querida. pensava que depois dos presentes que te dava ficavas bem!
-Não é bem assim, Dinis. Não adianta a oferta de presentes, sem que mudes as tuas atitudes…
-Desculpa, minha rainha, prometo que vou tentar mudar.
-Ainda bem que compreendes…. Decido então aceitar o castelo de Óbidos, meu amor!
-Fico feliz que aceites o presente! É um castelo cheio de amor!
E, a partir daí, D. Isabel de Aragão tudo fez para deixar a vila ainda mais bonita, recebendo o carinho do seu povo. Rei e Rainha viveram muito felizes, sem mais discussões desnecessárias e com muito amor, a recordar sempre que, às vezes, até as pequenas discussões podem ser superadas, quando há compreen-são e bondade no coração. As Madrinhas tudo observaram, testemunhando o início de uma longa tradição na qual os reis oferendam belos castelos às suas rainhas, como demonstração do seu afeto e consideração.
